Manifesto da Biblioteca Comum da Memória

A Biblioteca Comum da Memória é mais do que uma plataforma digital. É um espaço para celebrar a troca de conhecimento, uma heterotopia onde passado, presente e futuro coexistem.

Um Espaço Paralelo

Enquanto outras plataformas celebram a velocidade, nós celebramos a contemplação. Não é uma questão de certo ou errado, mas de escolha.

Vivemos em uma era de sobrecarga informacional. Somos bombardeados diariamente com milhares de conteúdos efêmeros, notificações intermináveis e algoritmos que competem pela nossa atenção. O resultado? Consumimos muito, mas absorvemos pouco. Salvamos tudo, mas preservamos pouco.

Imagine ter acesso aos conteúdos favoritos de um amigo, de um artista específico que você admira, ou de um cientista que pesquisa o mesmo tema que você. Imagine descobrir de onde vem aquela inspiração, quais referências moldaram aquele pensamento, que caminhos intelectuais levaram àquela criação. É sobre isso que estamos falando: transparência de influências, genealogia do pensamento, arqueologia da criatividade.

A História da Preservação

Desde o início dos tempos, a humanidade luta contra o esquecimento. Os egípcios mumificavam corpos, tentando deter a decomposição e preservar a essência de quem já não estava mais ali. Escultores gregos esculpiam estátuas de heróis e deuses, imortalizando rostos em mármore para que gerações futuras pudessem contemplá-los.

Nas cavernas de Lascaux, mãos anônimas pintaram bisões e cavalos há 17 mil anos — um grito silencioso atravessou milênios: "Estivemos aqui. Vimos isso. Isso importou."

A fotografia revolucionou essa busca quando, como André Bazin escreveu em sua Ontologia da Imagem Fotográfica, finalmente conseguimos "embalsamar o tempo". Pela primeira vez, não dependíamos da habilidade de um artista para preservar um momento, a luz fazia isso por nós. A câmera se tornou nossa múmia moderna, nossa estátua portátil, nossa pintura instantânea. O artista poderia finalmente se libertar do realismo, da perfeição, ou simplesmente pensa-la de outra forma.

E agora, na Era Digital, essa obsessão humana pela preservação encontrou novos meios e novos desafios. Armazenamos terabytes de informação, mas paradoxalmente, nunca foi tão fácil perder tudo em um piscar de olhos.

Movimentos que Desafiaram o Esquecimento

A história da cultura é também uma história de rupturas que se tornaram referências. A Semana de Arte Moderna de 1922 poderia ter sido esquecida como um evento escandaloso, mas suas ideias foram preservadas, discutidas, transformadas. O Cinema Marginal brasileiro dos anos 1960 e 70, com sua estética agressiva e política, foi marginalmente distribuído em sua época, mas hoje é estudado mundialmente porque alguém guardou as cópias e manteve viva a memória.

O Dadaísmo declarou guerra à arte tradicional e paradoxalmente se tornou parte essencial da história da arte. O Expressionismo Alemão capturou a angústia de uma era através de sombras distorcidas no cinema e na pintura. A Tropicália revolucionou a música brasileira ao antropofagizar influências globais com raízes nacionais. Cada um desses movimentos sobreviveu porque pessoas preservaram manifestos, gravações, filmes, fotografias, textos críticos e sentimentos.

Hoje, movimentos culturais nascem e morrem na velocidade de um scroll. Quantas revoluções artísticas estão acontecendo agora em plataformas que desaparecerão? Quantos manifestos estão sendo escritos em threads que serão deletadas? A Biblioteca Comum da Memória é para quem acredita que o contra-hegemônico de hoje pode ser essencial amanhã.

A Beleza da Perda Inevitável

Não nos iludimos. Sabemos que não podemos preservar tudo. Não devemos preservar tudo. Muito se perderá, inevitavelmente, apesar de nossos melhores esforços.

Links quebrarão. Servidores serão desligados. Plataformas fecharão. Páginas desaparecerão como areia entre os dedos. E há uma estranha poesia nisso, uma honestidade brutal sobre a natureza da memória humana.

Assim como nem toda múmia sobreviveu, nem toda estátua permaneceu intacta, nem toda fotografia resistiu ao tempo, nem todo link que salvamos hoje estará aqui amanhã.

O que fazemos aqui não é tentar deter a entropia do universo. É escolher conscientemente o que tentaremos preservar. É curadoria, não acumulação. É intenção, não ansiedade. É aceitar que somos guardiões temporários de conhecimentos que, se tiverem sorte, serão transmitidos adiante.

Preservamos não porque podemos salvar tudo, mas porque escolher o que preservar é um ato profundamente humano. Algumas vezes até autoritário.

Uma Heterotopia do Conhecimento

Michel Foucault descreveu heterotopias como espaços "outros", lugares reais que funcionam como contra-espaços, onde as regras convencionais são suspensas ou invertidas. Bibliotecas, museus, cemitérios: lugares onde o tempo se acumula infinitamente.

A Biblioteca Comum da Memória aspira ser uma heterotopia digital. Um espaço onde o passado é preservado através de links organizados e categorizados. O presente é vivido através de descobertas compartilhadas e conexões autênticas. O futuro é construído através do legado que deixamos para quem virá depois.

Aqui, o tempo não é linear. Uma citação de 400 a.C. pode dialogar com um artigo de ontem. Um vídeo de 1970 pode iluminar uma pesquisa de 2025. O conhecimento não tem data de validade quando é significativo.

Valorizamos o tempo de qualidade sobre a quantidade de interações. Valorizamos a profundidade sobre a viralidade. Valorizamos a preservação consciente sobre o acúmulo compulsivo.

A Importância da Curadoria

Museus não são apenas edifícios que guardam objetos. São instituições de curadoria, escolhem, contextualizam, preservam e compartilham. Quando você visita o Louvre, não está apenas vendo pinturas antigas; está experimentando séculos de decisões curatoriais sobre o que merece ser preservado e como deve ser apresentado.

Galerias de arte contemporânea fazem o mesmo com o presente: artistas curadores selecionam obras que dialogam entre si, criando narrativas visuais e conceituais. Cientistas publicam revisões bibliográficas que são essencialmente curadorias de conhecimento: "destes mil papers sobre o tema, estes vinte são essenciais para entender o estado da arte".

A Biblioteca Comum da Memória reconhece que cada usuário é um curador. Assim como um museólogo decide quais peças expor, você decide quais links preservar. Assim como um crítico de arte contextualiza uma obra, você adiciona descrições e tags. Assim como um cientista organiza referências bibliográficas, você constrói sua biblioteca pessoal de conhecimento e compartilha.

As referências importam. Quando um artista cita suas influências, quando um cientista referencia papers anteriores, quando um músico homenageia quem veio antes, isso não é fraqueza ou falta de originalidade. É honestidade intelectual. É reconhecer que nenhum pensamento nasce no vácuo. É mostrar os ombros de gigantes sobre os quais estamos.

"Se vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes." — Isaac Newton

E Newton só sabia disso porque conhecia as referências. Porque estudou os que vieram antes. Porque curou seu próprio conhecimento.

A curadoria não é acumulação. É seleção consciente. É dizer "isso importa" enquanto aceita que muito não será guardado. É criar caminhos através do caos informacional. É genealogia do pensamento.

Democratização e Vozes Independentes

A Biblioteca Comum da Memória não existe apenas para preservar o que já é consagrado. Existe também para amplificar o que ainda não foi descoberto.

Grandes museus e galerias tradicionais têm curadorias valiosas, mas também limitadas. Decidem o que é "arte" e o que não é. Definem cânones. Estabelecem hierarquias. E muitas vezes deixam de fora artistas independentes, criadores periféricos, pensadores não-acadêmicos, obras de pessoas racializadas, LGBTQIA+, neurodivergentes.

Aqui, a curadoria é distribuída e democrática. Uma pessoa neurodivergente pode criar uma biblioteca tão valiosa quanto a de um professor de Oxford. Um artista independente pode ser preservado ao lado de nomes consagrados. Um cientista de uma universidade desconhecida pode ter suas pesquisas curadas junto com papers de Harvard.

Isso é distribuição de poder. Não dependemos de portarias tradicionais para decidir o que merece atenção. Cada biblioteca pública é uma declaração: "isso importa para mim, e deve importar para o mundo".

Quando você salva o trabalho de um artista independente, quando compartilha a pesquisa de uma cientista desconhecida, quando preserva o pensamento de um filósofo marginalizado, você está participando de uma democratização radical do conhecimento.

Não queremos substituir museus, galerias e instituições tradicionais. Queremos complementá-los. Criar espaços paralelos onde o independente, o marginal, o ainda-não-reconhecido também tenha lugar.

Uma Rede Social Sem Pressão

A maioria das redes sociais exige presença constante. Se você não postar diariamente, o algoritmo te penaliza. Se você não gerar engajamento, você "desaparece". A lógica é produtivista, exaustiva, ansiogênica.

A Biblioteca Comum da Memória funciona de forma radicalmente diferente.

Aqui, você pode adicionar um link por semana. Ou dez em um dia e depois ficar um mês sem entrar. Ou construir sua biblioteca lentamente ao longo de anos. Não há penalização por lentidão. Não há cobrança por ausência. Não há expectativa de produção contínua.

Sua biblioteca não "morre" se você parar de alimentá-la diariamente. Ela permanece. Como um museu que não fecha porque não recebe peças novas todo dia. Como uma galeria que não desaparece por não inaugurar exposições semanais.

Esta é uma rede social para quem quer viver, não apenas documentar a vida. Para quem quer pensar, não apenas consumir pensamentos prontos. Para quem valoriza a contemplação tanto quanto a criação.

Você não precisa "estar sempre on". Pode entrar quando quiser aprender algo novo. Quando encontrar um artigo que vale preservar. Quando quiser explorar a biblioteca de alguém que admira. No seu tempo. No seu ritmo.

Defendemos o direito ao tédio criativo, à leitura profunda, ao pensamento demorado. Defendemos redes sociais que não tratam você como máquina de produção de conteúdo ou como alvo de anúncios.

Divulgação Científica e Acadêmica

A ciência brasileira produz conhecimento de ponta, mas enfrenta desafios de visibilidade e preservação. Pesquisadores publicam em journals de acesso restrito. Teses ficam enterradas em repositórios institucionais. Descobertas importantes não chegam ao público geral.

A Biblioteca Comum da Memória pode ser uma ferramenta de divulgação científica e preservação acadêmica.

Imagine cientistas curando bibliotecas com suas publicações, suas influências, papers que consideram fundamentais. Imagine estudantes descobrindo caminhos de pesquisa através das bibliotecas de orientadores. Imagine o público geral acessando divulgação científica de qualidade curada por quem realmente entende do assunto.

A Plataforma Lattes do CNPq é uma ferramenta essencial para documentar a produção acadêmica brasileira. Mas é, por design, um currículo formal. A Biblioteca Comum da Memória pode complementá-la oferecendo um espaço mais humano, mais narrativo, mais acessível.

Um pesquisador pode ter no Lattes a lista formal de publicações, mas na Biblioteca Comum da Memória pode compartilhar:

  • Links para versões de acesso aberto das pesquisas
  • Threads explicando descobertas em linguagem acessível
  • Vídeos, podcasts e materiais de divulgação
  • Referências que influenciaram suas pesquisas
  • Leituras recomendadas para quem quer entender a área

Isso não substitui plataformas acadêmicas formais. Complementa-as. Humaniza-as. Torna o conhecimento científico mais acessível sem sacrificar rigor.

Pesquisadores de universidades menores, de regiões fora do eixo Sul-Sudeste, todos têm espaço igual aqui. A hierarquia acadêmica tradicional coexiste com a valorização de vozes historicamente marginalizadas.

Conhecimento científico é patrimônio da humanidade. Merece ser preservado, compartilhado e democratizado.

Nossos Princípios

1. Preservação Cultural Consciente

Cada link salvo é um voto de confiança no futuro. Você não está apenas organizando conteúdo, está decidindo o que merece atravessar o tempo. Em um mundo onde páginas desaparecem e plataformas fecham, manter referências organizadas é um ato de resistência cultural. Mas é também um ato de humildade: sabemos que não salvaremos tudo, então escolhemos com cuidado.

2. Conhecimento como Bem Comum

O conhecimento não deve ser privilégio. Aqui, todas as vozes têm o mesmo peso. A biblioteca de um estudante vale tanto quanto a de um professor. A curadoria de uma pessoa curiosa pode iluminar caminhos que a academia tradicional ignora. Celebramos pensadores marginalizados, filosofias não-ocidentais, saberes populares. Esta é uma plataforma igualitária por design e por convicção.

3. Qualidade sobre Quantidade

Não é sobre ter mais, é sobre ter melhor. Uma biblioteca bem curada vale mais do que mil links esquecidos. Incentivamos a curadoria consciente, não o acúmulo compulsivo. Cada item salvo deve ter significado para você. Pergunte-se: "Por que isso importa? Por que escolho preservar isso?"

4. Conexões Autênticas

Seguimos bibliotecas, não números. Valorizamos assinaturas de visitantes, não likes vazios. Cada interação aqui tem peso e significado. Quando você assina o livro de presença de alguém, está dizendo "eu vi sua biblioteca, ela importa para mim". Isso vale mais do que mil corações em posts aleatórios. Conectamos pessoas por afinidades intelectuais reais, não por métricas de vaidade.

5. Respeito ao Tempo

Esta é uma rede social para quem quer investir tempo, não perdê-lo. Sem feeds infinitos. Sem algoritmos viciantes. Sem notificações desnecessárias. Você decide quando entrar, o que ver e por quanto tempo ficar. Seu tempo é seu. Defendemos o direito ao tédio produtivo, à leitura profunda, à contemplação sem pressa.

6. Privacidade e Autonomia

Sua biblioteca, suas regras. Você decide o que é público, o que é privado e quem pode ver. Não vendemos seus dados. Nunca. Não rastreamos você por toda a internet. Não usamos algoritmos manipulativos. Você está no controle.

7. Igualdade e Diversidade

Todas as vozes merecem ser ouvidas. Todas as bibliotecas têm valor. Não há hierarquia de conhecimento aqui. O cânone tradicional coexiste com saberes subalternos. Conhecimento é plural ou não é conhecimento.

8. Gratuito e Sustentável

Armazenamos links, não arquivos. Isso nos permite oferecer a plataforma gratuitamente, sem dependência de anunciantes ou venda de dados. Nosso modelo é sustentável porque é simples. Você guarda seus arquivos onde preferir, nós apenas mantemos as referências organizadas.

O Que Defendemos

Defendemos a ideia de que a internet pode ser um lugar melhor, não pela destruição do que existe, mas pela criação de alternativas. Um lugar onde o conhecimento é valorizado, onde as pessoas se conectam por afinidades genuínas, onde o silêncio e a reflexão têm espaço.

Defendemos o direito de cada pessoa de construir sua própria narrativa intelectual, de criar seu próprio arquivo pessoal de memórias digitais, de compartilhar conhecimento sem ser explorado por algoritmos corporativos.

Defendemos uma internet mais lenta, mais cuidadosa, mais humana. Onde você não precisa produzir conteúdo constantemente para existir. Onde você pode simplesmente curar, organizar e compartilhar o que considera valioso.

Defendemos o direito ao aprendizado que leva tempo. Às conversas que não cabem em 280 caracteres. À complexidade que resiste à simplificação e ao simples que desafia a complexidade. Ao conhecimento que desafia, incomoda, transforma.

Exaltamos o conhecimento em todas as suas formas: acadêmico e popular, ocidental e não-ocidental, canônico e marginal, antigo e contemporâneo.

O Que Não Somos

Não somos contra outras plataformas. Somos uma alternativa paralela, não uma oposição. Acreditamos na coexistência de diferentes modelos de rede social, cada um servindo a diferentes necessidades e desejos.

Não prometemos preservar tudo. Muito se perderá. Links quebrarão. Isso faz parte da natureza digital da memória. O que oferecemos é um espaço para preservação consciente, não uma garantia contra a entropia.

Não somos para todos. Se você busca viralidade, milhões de seguidores e trends do momento, existem plataformas excelentes para isso. Estamos aqui para quem busca profundidade, não amplitude. Lentidão, não velocidade. Significado, não alcance.

Não somos perfeitos. Somos um projeto em construção, feito por pessoas que acreditam que é possível fazer diferente. Vamos errar, aprender e melhorar junto com a comunidade.

Faça parte desse caminho paralelo

Se você se identificou com esses princípios, junte-se a nós. Construa sua biblioteca. Preserve suas memórias. Conecte-se com quem compartilha seus valores. Seja um guardião do conhecimento.

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